Trauma racial entra em pauta na Jornada de Psicanálise da Napsi 2025


“A escuta psicanalítica do trauma racial” foi o tema da palestra da jornalista Núbia Cristina Santos - pesquisadora da clínica racializada e psicanalista em formação - apresentado durante a Jornada de Psicanálise 2025 do Napsi (Núcleo de Atendimento Psicanalítico de Salvador). O trabalho apresentado abordou os impactos psíquicos do racismo e do colonialismo na constituição subjetiva de populações negras e indígenas no Brasil.O evento aconteceu no sábado passado, 13.12.2025, no Edifício Atlantis Multi Empresarial e reuniu psicanalistas, pesquisadores, profissionais em formação e integrantes dos Ateliês de Psicanálise da instituição. 

O trabalho da pesquisadora parte da própria história da psicanálise, concebida por Freud como um campo interdisciplinar em diálogo com antropologia, sociologia, filosofia e história. Em obras como Totem e Tabu (1913) e Psicologia das Massas e Análise do Eu (1921), Freud demonstra a relação indissociável entre sujeito e laço social, ressaltando que a subjetividade é sempre formada na presença do outro. A palestra retoma essa tradição ao articular a psicanálise com a sociologia, a história, a economia e os estudos pós-coloniais para analisar os efeitos do colonialismo europeu – marcado pela escravização de povos africanos, pela violência contra povos indígenas e pela desterritorialização contínua – na formação psíquica e cultural do país.

“O racismo brasileiro, herança direta desse processo, consolidou-se como fenômeno estrutural que produz desigualdades persistentes e molda a experiência subjetiva da população”, pontua Núbia. “Nesse contexto, a clínica dirigida a pessoas negras e indígenas precisa apoiar-se em bases antirracistas e reconhecer saberes afro-brasileiros, tradicionais e originários. A escuta psicanalítica deve legitimar dores coletivas historicamente silenciadas e compreender o sofrimento psíquico como atravessado por dimensões sociais, históricas e interseccionais”, destaca.

A palestra também discutiu como o colonialismo português instituiu hierarquias raciais que determinaram quem seria reconhecido como humano e digno de direitos. “Tais estruturas não pertencem apenas ao passado: tornam-se marcas inscritas no inconsciente, entendido por Freud como um conjunto de traços mnêmicos acumulados ao longo da vida. Assim, experiências repetidas de humilhação, exclusão e violência racial produzem efeitos que ultrapassam a biografia individual, manifestando-se em retraimento, angústia e sentimentos de inadequação”, pontua a pesquisadora.
 
Autores negros
Autores como Frantz Fanon, referência global nos estudos entre raça e subjetividade, aprofundam essa análise ao propor o conceito de sociogênese, segundo o qual o sofrimento psíquico de pessoas negras é produzido pelas estruturas coloniais que organizam linguagem, economia e afetos. Fanon mostra que o chamado “complexo de inferioridade do negro” é resultado de um duplo processo: material, pela desigualdade econômica; e subjetivo, pela interiorização da desvalorização. A psicóloga e psicanalista Isildinha Nogueira, em A cor do inconsciente (2021), evidencia a brutalização histórica do corpo negro, enquanto Lucas Veiga, em Clínica do impossível (2021), define o racismo como economia psíquica, marcada pela acumulação negativa de discursos que desqualificam sujeitos negros e pela acumulação positiva que sustenta o valor simbólico da branquitude.

“As desigualdades que atingem negros e indígenas – maior exposição à pobreza, violência e vulnerabilidade sanitária – intensificam sentimentos de medo, exaustão e desamparo. Por isso, quadros de ansiedade, depressão e angústia não podem ser interpretados como fenômenos isolados quando se trata de sujeitos racializados, pois expressam também efeitos de violências estruturais e de um trauma histórico coletivo”, afirma Núbia.

A Jornada de Psicanálise da Napsi se consolidou como um importante espaço de reflexão e partilha de pesquisas e experiências clínicas, reunindo profissionais comprometidos com uma psicanálise sensível às questões contemporâneas, às desigualdades sociais e às múltiplas formas de sofrimento psíquico.
 
Núbia Cristina, 15.DEZEMBRO.2025 | Postado em Notícias
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