A Copa que não é para todos

Cultura e Pensamento

Por Núbia Cristina
A Copa do Mundo costuma ser apresentada como uma celebração da diversidade. Durante pouco mais de um mês, seleções de diferentes continentes se encontram em campo, torcidas cruzam fronteiras e o futebol assume o papel simbólico de linguagem universal. Mas, nos primeiros dias do Mundial de 2026, sediado por Estados Unidos, México e Canadá, a promessa de união tem convivido com denúncias de racismo, xenofobia, perfilamento racial e restrições migratórias.

A contradição aparece logo no discurso oficial. A Fifa lançou para esta edição campanhas de impacto social, entre elas a No Racism, com mensagens contra a discriminação previstas para aparecer nos estádios e nas transmissões ao longo dos 104 jogos. A entidade fala em tolerância zero contra o racismo e em mobilização global para que torcedores, atletas e instituições se posicionem contra abusos raciais.

Fora do material institucional, porém, a Copa começou atravessada por episódios que questionam os limites desse compromisso. Um dos casos mais emblemáticos envolve o árbitro somali Omar Abdulkadir Artan, eleito o melhor árbitro da África em 2025 e escalado para atuar no torneio. Ele foi impedido de entrar nos Estados Unidos e acabou fora da competição. A justificativa apresentada por autoridades norte-americanas foi a suposta ligação com pessoas suspeitas de terrorismo, sem que os detalhes tenham sido tornados públicos.

O caso de Artan extrapolou o campo esportivo porque toca em uma questão central da Copa de 2026: quem tem direito de circular no evento que se anuncia como mundial? A presença de um árbitro africano, reconhecido internacionalmente e credenciado para trabalhar no torneio, foi barrada por uma política migratória que tem sido criticada por organismos de direitos humanos. A Fifa, por sua vez, afirmou que não controla decisões de imigração dos países-sede.

A preocupação chegou à Organização das Nações Unidas. O alto comissário da ONU para os Direitos Humanos, Volker Türk, pediu uma revisão das políticas migratórias dos Estados Unidos no contexto da Copa e citou riscos ligados a perfilamento racial, vigilância e fiscalização migratória. Para ele, megaeventos esportivos precisam oferecer um ambiente seguro e digno não apenas para atletas, mas também para torcedores, profissionais e comunidades envolvidas.

Irã no centro das tensões
O Irã também entrou no centro das tensões. A federação iraniana denunciou problemas com vistos e com a cota de ingressos destinada aos seus torcedores. Integrantes da delegação tiveram dificuldades de entrada nos Estados Unidos, e a seleção transferiu sua base de preparação para Tijuana, no México, embora parte de seus jogos aconteça em território norte-americano. A situação colocou em evidência como disputas geopolíticas podem atingir diretamente jogadores, torcidas e trabalhadores do futebol.

As denúncias não se restringem ao Oriente Médio. A principal entidade de torcedores da Costa do Marfim afirmou que apoiadores marfinenses tiveram vistos negados pelos Estados Unidos e cancelaram a viagem para acompanhar a seleção. A delegação de Senegal também foi alvo de repercussão após imagens mostrarem integrantes sendo revistados ao desembarcar. Para veículos que acompanham questões raciais e diaspóricas, esses episódios ajudam a compor o retrato de uma Copa marcada pela suspeição sobre corpos negros, africanos e migrantes.

O Brasil também apareceu nesse mapa de constrangimentos. A jornalista Karine Alves, da TV Globo, relatou ter sido tratada com rispidez e obrigada a levantar o cabelo durante procedimento de imigração ao chegar aos Estados Unidos para cobrir o Mundial. A Federação Nacional dos Jornalistas manifestou preocupação com relatos de constrangimento envolvendo profissionais de imprensa e classificou o episódio como parte de um cenário mais amplo de violações e restrições.

O cabelo negro, nesse caso, deixa de ser apenas um traço físico e passa a ser tratado como objeto de inspeção. A cena dialoga com experiências históricas de controle sobre corpos racializados, especialmente de mulheres negras, frequentemente submetidas a procedimentos de desconfiança em aeroportos, fronteiras, espaços comerciais e ambientes institucionais.

No México, outro episódio ganhou repercussão internacional. Durante uma partida da Coreia do Sul, a influenciadora sul-coreana Yoon Su-jin, conhecida como Ino Cat, registrou um torcedor mexicano fazendo um gesto racista contra pessoas asiáticas. O vídeo viralizou, o homem foi identificado e pediu desculpas publicamente. O caso demonstra que o racismo na Copa não se expressa apenas nas fronteiras e nos controles de Estado, mas também nas arquibancadas, nas interações entre torcedores e nas redes sociais.

Até mesmo a estrutura oficial da arbitragem entrou no debate. O árbitro de vídeo Shaun Evans foi investigado depois de aparecer fazendo um gesto associado por críticos a símbolos supremacistas brancos. A Fifa o inocentou, afirmando não ter encontrado violação ao código disciplinar. Ainda assim, a repercussão revela a sensibilidade do tema em um torneio que se apresenta como espaço de diversidade, mas ocorre em um ambiente internacional marcado por tensões raciais, migratórias e políticas.

Os casos têm naturezas diferentes. Alguns envolvem decisões de Estado, outros atitudes individuais, relatos de profissionais, denúncias de federações ou disputas simbólicas em torno de gestos e imagens. Mas todos apontam para uma mesma pergunta: que tipo de mundo a Copa representa quando parte dele é impedida, constrangida ou tratada como ameaça?

O futebol sempre foi território de pertencimento e exclusão. Celebra jogadores migrantes quando eles vencem, transforma atletas negros em ídolos nacionais quando entregam títulos, mas frequentemente tolera ou minimiza as violências que atingem esses mesmos corpos quando eles atravessam fronteiras, erram em campo, reivindicam direitos ou simplesmente ocupam espaços de visibilidade.

Por isso, os episódios desta Copa não devem ser lidos como incidentes isolados. Eles revelam como o racismo e a xenofobia atravessam as estruturas do esporte, da segurança, da mídia, das políticas migratórias e das relações entre torcidas. A bola rola, os estádios lotam, as campanhas institucionais aparecem nos telões. Mas, nos bastidores e nas fronteiras, a pergunta permanece: a Copa é mesmo do mundo inteiro?

Para além do espetáculo, o Mundial de 2026 expõe uma disputa sobre circulação, dignidade e pertencimento. E talvez essa seja uma das principais histórias desta edição: não apenas quem vence dentro de campo, mas quem consegue chegar até ele sem ser barrado, revistado, silenciado ou humilhado.

 
Núbia Cristina, 16.JUNHO.2026 | Postado em Notícias
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