Quando a fronteira atravessa o corpo

Por Núbia Cristina

A Copa do Mundo costuma ser narrada como uma festa de povos. Bandeiras, hinos, línguas, sotaques, corpos e culturas ocupam o mesmo espetáculo, como se o futebol fosse capaz de suspender, por algumas semanas, as fronteiras que organizam o mundo. Mas as denúncias de racismo, xenofobia e constrangimentos vividas nos primeiros dias do Mundial de 2026 mostram que nem todas as pessoas atravessam essas fronteiras da mesma forma.

Para alguns corpos, circular é mais difícil. Para algumas nacionalidades, chegar é mais suspeito. Para algumas peles, cabelos, nomes, passaportes e sotaques, a entrada no país, no estádio ou na própria narrativa da festa vem acompanhada de desconfiança.

É nesse ponto que a discussão deixa de ser apenas esportiva, política ou diplomática. Ela também se torna subjetiva.

Quando uma pessoa é barrada, revistada de forma constrangedora, exposta a um gesto racista ou tratada como ameaça em um espaço público, o que se produz não é apenas um episódio administrativo ou uma cena isolada. Há uma marca simbólica. O corpo passa a receber uma mensagem violenta: você não pertence inteiramente a este lugar.

A humilhação pública tem efeitos profundos porque ela não atinge somente o indivíduo no momento do acontecimento. Ela convoca memórias coletivas, histórias familiares, experiências anteriores de suspeição e pertencimentos interrompidos. Uma revista no cabelo de uma mulher negra, por exemplo, não é apenas um procedimento de segurança quando acontece de forma desigual, ríspida e racializada. Ela se inscreve em uma longa história de controle sobre corpos negros.

O mesmo pode ser pensado quando torcedores africanos relatam dificuldades para obter vistos, quando profissionais do futebol vindos do Sul Global são tratados como risco, ou quando pessoas asiáticas são alvo de gestos racistas em arquibancadas. A violência não está apenas no ato em si, mas na repetição. No acúmulo. Na sensação de que, em qualquer espaço internacional, o corpo racializado pode ser novamente convocado a se explicar.

A clínica racializada nos ajuda a nomear esse sofrimento sem reduzi-lo a fragilidade individual. Não se trata de dizer que uma pessoa “não aguentou” uma abordagem, uma piada ou um constrangimento. Trata-se de reconhecer que o racismo e a xenofobia operam também no campo psíquico, produzindo vigilância constante, medo antecipado, retraimento, vergonha, raiva e cansaço.

A hipervigilância é um desses efeitos. Pessoas negras, indígenas, migrantes, árabes, africanas, asiáticas ou pertencentes a grupos historicamente marcados pela suspeição muitas vezes aprendem a entrar nos lugares observando tudo: o olhar do segurança, o tom da voz do agente, o movimento da fila, o comentário disfarçado, a risada que parece piada, mas carrega desprezo. O corpo se prepara antes mesmo da agressão acontecer.

Esse estado de alerta permanente cobra um preço. Ele exige energia psíquica. Interrompe a espontaneidade. Faz com que o sujeito, em vez de simplesmente viajar, trabalhar, torcer ou celebrar, precise calcular como será lido pelo outro. A experiência do mundo deixa de ser apenas vivida e passa a ser monitorada.

Na Copa, esse contraste fica ainda mais evidente porque o discurso oficial fala de união, diversidade e celebração. Mas o que acontece quando, justamente no evento que promete acolher o mundo, algumas pessoas são lembradas de que continuam sendo vistas como estrangeiras indesejadas, corpos suspeitos ou presenças toleradas apenas sob condição?

O futebol tem a força de produzir identificação coletiva. Uma camisa pode dar sensação de pertencimento, uma torcida pode reunir desconhecidos, um gol pode suspender diferenças por alguns segundos. Mas o racismo interrompe essa experiência. Ele retira do sujeito o direito de estar plenamente na cena. Faz com que a pessoa seja vista antes pela marca racial, pela origem, pela nacionalidade ou pelo estereótipo do que pela sua humanidade.

Por isso, falar de racismo e xenofobia na Copa também é falar de saúde mental. Não no sentido individualizante de transformar toda dor em diagnóstico, mas no sentido político e clínico de compreender que o sofrimento racializado é produzido nas relações, nas instituições, nas fronteiras, nas imagens e nos discursos.

A elaboração coletiva é parte fundamental desse processo. Quando uma jornalista denuncia uma abordagem racista, quando uma torcedora expõe um gesto discriminatório, quando entidades e veículos racializados nomeiam a violência, há uma recusa ao silenciamento. O que era para ser vivido como vergonha individual pode se transformar em denúncia pública, memória e disputa de narrativa.

Nomear é importante. Porque o racismo frequentemente tenta se esconder atrás da burocracia, da piada, do protocolo, do mal-entendido ou da neutralidade. A xenofobia costuma se justificar em nome da segurança, da ordem ou da proteção de fronteiras. Mas, para quem sofre a violência, o corpo sabe quando foi colocado em suspeição.

A pergunta que a Copa de 2026 nos deixa não é apenas quem será campeão. É também quem pode ocupar o mundo sem ser constrangido por existir. Quem pode atravessar uma fronteira sem ter o corpo vasculhado pela lógica da suspeita. Quem pode torcer sem ser ridicularizado. Quem pode trabalhar sem ser humilhado. Quem pode pertencer.

Se o futebol quer, de fato, unir o mundo, precisa começar reconhecendo que o mundo não chega ao estádio em igualdade de condições. Alguns chegam celebrados. Outros chegam vigiados. E é nessa diferença que o racismo continua produzindo sofrimento.

A escuta racializada nos convoca a olhar para essas cenas não como episódios menores, mas como sintomas de uma estrutura que adoece. Porque o que fere não é apenas o gesto racista ou a barreira migratória. O que fere é a mensagem repetida de que determinados corpos seguem precisando provar, o tempo inteiro, que têm direito de estar.
 
Núbia Cristina, 16.JUNHO.2026 | Postado em Notícias
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